terça-feira, 5 de novembro de 2013

Com a inteligência e a reflexão cada vez mais raras e a intolerância daí decorrente, construímos uma sociedade cada vez mais dividida

Esta semana está sendo rica em episódios bastante esclarecedores sobre a internet, sua influência, seus impactos, sua repercussão e a sociedade que a produz e/ou “é produzida” por ela.

Alguns entenderão esses episódios como resultado de uma influência da rede, atribuindo a esta a causa do que sucedeu.

Outros, provavelmente, indo no sentido oposto, poderão dizer que o que houve foi apenas a rede expondo de forma mais ampla o que já está posto na sociedade - a raridade da inteligência, da capacidade de pensar, de estabelecer relações entre pessoas, entidades e eventos a partir de uma leitura própria, não mediada pelos "formadores de opinião", fartamente distribuídos pelos veículos da imprensa e outras instituições, incluídas aí, a academia e seus intelectuais.

Entre essas duas correntes, considero estar mais próximo desta última.

Mas, por tudo o que tenho observado, tendo a considerar uma terceira explicação, à qual, certamente, não aderirei sozinho. A de que se trata de um fenômeno dialético e não excludente de outras variantes. Entramos num círculo vicioso do qual poucos conseguem escapar. Essa "falta de inteligência" ou a "abdicação da capacidade de reflexão própria" pode, sim, estar sendo apenas mais evidenciada pela amplitude e repercussão que lhe são proporcionadas pelo alcance da internet. Mas, não apenas isso. O aumento do volume e da velocidade com que as informações são transmitidas pela rede, acompanhado da precária confiabilidade dessas mesmas informações e da ansiedade das pessoas pela exposição e celebridade, contribui para que a reflexão seja cada vez menos praticada.

O pior, nessa última hipótese, é que aqueles poucos que conseguem escapar desse círculo, ficam, obviamente, "fora do círculo", isolados, e passam a ser considerados como os esquisitos, os chatos, os "anormais". Isso é o que mais me assusta. Já que muitos preferem fazer o movimento oposto - entrarem no círculo a fim de se manterem em voga. A qualquer custo. Um dos episódios caracteriza isso exemplarmente.

Os episódios mencionados são 1) o artigo de Miriam Leitão, em O Globo, em que ela desanca dois dos "articulistas" mais festejados pelos conservadores - Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino; 2) o vídeo de Veja SP sobre o "sultão dos camarotes" que já se transformou num viral e gerou vários gifs e 3) um artigo publicado na Folha de S.Paulo por Antonio Prata, cuja ironia muitos não perceberam, dentre eles o roqueiro (ou ex-roqueiro, como queiram) Roger, um dos mais novos conservadores do mercado, que postou elogios no Twitter ao que ele "entendeu" do texto, pagando o maior mico.

Em minha opinião, os três episódios estão intimamente ligados e são a clara representação da futilização e da inflexão conservadora por que nossa sociedade vem passando, evidenciando aspectos de nosso atual cenário político e cultural. E demonstram como a ânsia por “postar”, “curtir” e “compartilhar” freneticamente embotam o raciocínio e induzem à irreflexão e, consequentemente, a conclusões equivocadas e perigosas.

No primeiro caso, muita gente “de esquerda” empolgou-se com a diatribe de Miriam Leitão, vendo nela o que não existia e imaginando, talvez, uma mudança de lado da jornalista global. Para ficar apenas em um exemplo, muitos não viram que, logo no primeiro parágrafo, ela repete uma acusação já fartamente exposta por seus “contendores”: a de que os blogueiros de esquerda - e que fazem o contraponto inexistente na grande mídia - não passam de fracassados e/ou vagabundos a soldo do governo para fazer a sua defesa.

Para ler o artigo e algumas análises mais lúcidas sobre ele sugiro a leitura de:

http://www.brasil247.com/pt/247/economia/119666/Miriam-Constantino-e-Reinaldo-emburrecem-o-Pa%C3%ADs.htm?fb_action_ids=703523096326826&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

http://www.ocafezinho.com/2013/11/04/miriam-leitao-x-reinaldo-azevedo-briga-na-casa-grande/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-que-esta-por-tras-do-ataque-de-miriam-leitao-a-direita-hidrofoba-que-emburrece-o-pais/

Depois, em resposta a Miriam, Reinaldo Azevedo postou em seu blogue, ironicamente, que iria, então, parar de escrever. E muitos bradaram alvíssaras, acreditando, tolamente, que isso fosse verdade. Vejam:

http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/119801/Reinaldo-o-rottweiler-promete-pendurar-as-chuteiras.htm

No segundo caso, a mesma VEJA - em cujo site Reinaldo Azevedo tem hospedado seu blogue -, postou um vídeo em que um “playboy” paulista exibe suas incursões e gastanças pela noite e, de quebra, dá dicas para quem pretender seguir seu exemplo. O episódio mostra bem o quão fútil e superficiais são nossas elites e também o que VEJA, quando não está cumprindo seu papel de partido político e atacando o governo, considera ser conteúdo de interesse jornalístico

http://youpix.com.br/fun/obrigado-internet-os-10-gifs-do-rei-do-camarote/

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-veja-sp-morreu-tecnicamente-com-o-sultao-dos-camarotes/

Uma boa crítica do episódio e também de como algo assim pode transformar-se na nossa catarse está em

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-rei-do-camarote-e-o-mito-do-vencedor-1654.html/view

Mas o episódio que mais me chamou a atenção e que vi como o mais representativo foi o terceiro deles.

No último domingo, Antonio Prata publicou o seguinte texto na Folha de S.Paulo:

Guinada à direita

Há uma década, escrevi um texto em que me definia como "meio intelectual, meio de esquerda". Não me arrependo. Era jovem e ignorante, vivia ainda enclausurado na primeira parte da célebre frase atribuída a Clemenceau, a Shaw e a Churchill, mas na verdade cunhada pelo próprio Senhor: "Um homem que não seja socialista aos 20 anos não tem coração; um homem que permaneça socialista aos 40 não tem cabeça". Agora que me aproximo dos 40, os cabelos rareiam e arejam-se as ideias, percebo que é chegado o momento de trocar as sístoles pelas sinapses.

Como todos sabem, vivemos num totalitarismo de esquerda. A rubra súcia domina o governo, as universidades, a mídia, a cúpula da CBF e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, na Câmara. O pensamento que se queira libertário não pode ser outra coisa, portanto, senão reacionário. E quem há de negar que é preciso reagir? Quando terroristas, gays, índios, quilombolas, vândalos, maconheiros e aborteiros tentam levar a nação para o abismo, ou os cidadãos de bem se unem, como na saudosa Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que nos salvou do comunismo e nos garantiu 20 anos de paz, ou nos preparemos para a barbárie.

Se é que a barbárie já não começou... Veja as cotas, por exemplo. Após anos dessa boquinha descolada pelos negros nas universidades, o que aconteceu? O branco encontra-se escanteado. Para todo lado que se olhe, da direção das empresas aos volantes dos SUVs, das mesas do Fasano à primeira classe dos aviões, o que encontramos? Negros ricos e despreparados caçoando da meritocracia que reinava por estes costados desde a chegada de Cabral.

Antes que me acusem de racista, digo que meu problema não é com os negros, mas com os privilégios das "minorias". Vejam os índios, por exemplo. Não fosse por eles, seríamos uma potência agrícola. O Centro-Oeste produziria soja suficiente para a China fazer tofus do tamanho da Groenlândia, encheríamos nossos cofres e financiaríamos inúmeros estádios padrão Fifa, mas, como você sabe, esses ágrafos, apoiados pelo poderosíssimo lobby dos antropólogos, transformaram toda nossa área cultivável numa enorme taba. Lá estão, agora, improdutivos e nus, catando piolho e tomando 51.

Contra o poder desmesurado dado a negros, índios, gays e mulheres (as feias, inclusive), sem falar nos ex-pobres, que agora possuem dinheiro para avacalhar, com sua ignorância, a cultura reconhecidamente letrada de nossas elites, nós, da direita, temos uma arma: o humor. A esquerda, contudo, sabe do poder libertário de uma piada de preto, de gorda, de baiano, por isso tenta nos calar com o cabresto do politicamente correto. Só não jogo a toalha e mudo de vez pro Texas por acreditar que neste espaço, pelo menos, eu ainda posso lutar contra esses absurdos.

Peço perdão aos antigos leitores, desde já, se minha nova persona não lhes agradar, mas no pé que as coisas estão é preciso não apenas ser reacionário, mas sê-lo de modo grosseiro, raivoso e estridente. Do contrário, seguiremos dominados pelo crioléu, pelas bichas, pelas feministas rançosas e por velhos intelectuais da USP, essa gentalha que, finalmente compreendi, é a culpada por sermos um dos países mais desiguais, mais injustos e violentos sobre a Terra. Me aguardem.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonioprata/2013/11/1366185-guinada-a-direita.shtml

Ao que parece, a grande maioria dos leitores não percebeu que se tratava de uma ironia. Foram tantos os comentários postados e os e-mails enviados ao autor com esculhambações partidas de quem se considera esquerdista/progressista e elogios e apoios de leitores conservadores que transitam aos montes pelos sites e portais da grande imprensa nacional, que ele precisou fazer um esclarecimento.

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=651881084832478&set=a.112425728778019.12476.100000317783289&type=1&theater​​

Dentre os que o elogiaram estava o roqueiro Roger, do Ultraje a Rigor. O mesmo que dias atrás, junto com Danilo Gentili fazia piadas preconceituosas sobre nordestinos e cubanos (http://www.youtube.com/watch?v=0bpt0XNbits). Vejam o comentário dele no Twitter:

http://contextolivre.blogspot.com.br/2013/11/ex-roqueiro-que-alega-ter-qi-elevado.html?spref=fb

Pagou mico! Mas, por não haver entendido a ironia, Roger não precisa se atormentar. Afinal, ela é mesmo algo que depende de contexto e de conhecimento do leitor sobre as ideias e opiniões de quem a produz para sua compreensão.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2013/11/05/a-ironia-na-internet-uma-figura-bonitinha-mas-ordinaria/

Aliás, nem tenho como saber se Roger se preocupa com contexto ou em conhecer o histórico dos autores do que lê. Mas, indo além do personagem em questão, é exatamente essa uma das questões que me chamam a atenção nesse caso, que, como já disse, julgo intimamente ligado aos demais.

A grande maioria dos usuários das redes sociais não lê os textos cujos links aparecem em suas linhas de tempo (timelines). No máximo, leem seus resumos. E os compartilham sem qualquer comentário - o que seria mesmo impossível já que não os leem. Isso impede que se saiba se discordam de seu conteúdo e leva a conclusão – não deveria, mas leva – de que o endossam. Ou seja, temos uma profusão de textos compartilhados milhões de vezes, mas que raramente são lidos. Então, pode até haver alguma produção, mas não difusão de informação e/ou conhecimento.

Neste momento, eu mesmo posso estar desperdiçando energia ao produzir esse texto que, provavelmente, pouquíssimas pessoas lerão. Haja angústia!

Não estou sugerindo que Roger não tenha lido o artigo; provavelmente o fez. Mas, ao que parece, nada sabia de seu autor e, mesmo assim, julgou tê-lo compreendido corretamente e igualmente correto recomendá-lo. E, a partir de seu post, muitas outras pessoas o repassaram e igualmente recomendaram.

Podemos até aceitar que se boa parte das pessoas não se interessa em informar-se ou adquirir conhecimento isso seja problema delas, algo de interesse absolutamente pessoal. De foro íntimo, diríamos. Mas como compreender que se repasse aquilo que não se conhece? Como, então, emitir opiniões a respeito de quase tudo? É só “achismo”, “eu acredito nisso”, “eu não acredito naquilo” e pronto!

Há pouco mais de três meses, postei aqui mesmo nesse blogue um texto exatamente sobre isso, relatando um fato ocorrido comigo.

E como entrar em debates contundentes, ofensivos, com uso de expressões chulas, moralmente agressivas, com pessoas que não se conhece e tecer sobre elas juízos de valor, como aqueles feitos pelos articulistas alvos de Miriam Leitão?

Eu mesmo, que nunca trabalhei no Serviço Público e nunca fui filiado a qualquer partido, outro dia passei pela experiência de ser acusado por uma pessoa que nada sabe a meu respeito - porque sequer me viu alguma vez na vida - de ser ocupante de cargo comissionado no governo, nomeado apenas para ficar na internet fazendo propaganda. Pode uma coisa dessas?

Embora em minha experiência pessoal venha encontrando maior número de pessoas com esse comportamento dentre aquelas que expressam um pensamento conservador, é preciso dizer que à esquerda também há aqueles, não poucos, que adotam tal postura.

Assim, vamos erigindo uma sociedade que, por não se preparar, está cada vez menos apta ao debate elucidativo e construtivo. E com isso vamos vendo, ao contrário do que se deseja e espera, uma sociedade cada vez mais dividida. Sim! Porque, em vez de termos apenas esquerda e direita ou progressistas e conservadores, temos divisões internas a esses grupos. A qualquer divergência que surja, por menor que seja, estabelecem-se cada vez mais e menores segmentos, cada um deles a defender aquela sua posição particular, sobre um aspecto particular da vida, contra todos os demais, independentemente de tantas outras posições concordantes.

E a intolerância parte também - muitas vezes, embora possa parecer apenas uma reação -, daqueles que pregam posições a princípio progressistas. Não se aceita que se pense diferente. É tudo ou nada. Ou você pensa 100% igual, ou você é inimigo.

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