sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Black Blocs, violência, razão, ganhos e perdas

Muito já disse e já se escreveu nos últimos meses sobre as ações dos chamados Black Blocs, suas motivações e consequências, sobre como são divulgadas pela “grande” mídia corporativa e sobre como têm sido reprimidas e tratadas pelo Estado (governadores, polícias, Ministério Público e Judiciário). Muitos a favor e outros tantos contrários. Alguns são ótimos artigos, sérios, profundos; outros nem tanto. E muitos não passam de mero “achismo” ou partidarismo. Eu mesmo já escrevi sobre o assunto (Black Blocs: quais as alternativas?, MARKO ZERO, 5/8/2013), afirmando não concordar com sua prática, mas também alertando para a necessidade de uma reflexão mais profunda sobre as causas e origens desse fenômeno entre nós.

Um desses artigos chamou-me a atenção. É A guerra suja conta o vandalismo, de Matheus Boni Bittencourt, publicado no portal do Centro de Mídia Independente, em 12/9/2013, e republicado no site VIOMUNDO, em, 16/9/2013. Embora pareça tratar-se de um trabalho levado a termo com seriedade e profundidade ao menos razoável, o artigo peca, em minha opinião, pela parcialidade. O autor, claramente, adotou um dos lados e desenvolve toda sua argumentação a partir desse posicionamento prévio.

Vejamos!

O autor parte de uma premissa falsa - insistentemente repetida por ele na esperança de assim torná-la verdadeira -, de que a violência dos Black Blocs é "apenas" reação à repressão violenta praticada pela polícia. ISTO NÃO É VERDADE.

Houve repressão excessivamente violenta e arbitrariedades cometidas pela polícia, sim. Mas, houve, também, violência e vandalismo como ação inicial por parte desses grupos infiltrados entre os manifestantes.

Afirmar que só agem contra símbolos capitalistas também não é verdade. Muitas foram as instalações públicas danificadas ao longo das tais "manifestações".

Também não é verdade, como tenta fazer crer o autor, que os BB tenham ido às ruas para "defenderem" os manifestantes da violência policial. São numerosíssimos os "incidentes" em que a iniciativa de "confronto" foi claramente desses grupos.

E também não é integralmente verdadeiro o discurso de que isso foi o que a mídia quis que acreditássemos e que nos mostrou em imagens editadas e manipuladas. Apesar de isso haver acontecido, sim, também, os incidentes a que me refiro verdadeiramente ocorreram - alguns deles eu mesmo os vi, não fiquei sabendo apenas por me contarem.

E se, num esforço de estabelecimento de algum diálogo, aceitarmos o discurso de que a violência praticada é dirigida exclusivamente a ícones do capitalismo, cabe, então, perguntar: e de onde vem a ideia de que nosso povo esteja nas ruas manifestando-se contra o capitalismo? De onde vem a ideia de que tenhamos um país a clamar pela instauração de um outro sistema? Podemos alguns de nós ter esse desejo. E proclamá-lo. Ou agir de acordo com ele em nosso cotidiano ou em nossas manifestações políticas e/ou protestos. Mas estendê-los a toda a população ou mesmo apenas aos manifestantes “pacíficos” é claro exagero. Ao contrário do que podem pensar ou desejar os Black Blocs, não vivemos um ambiente revolucionário.

E se sua luta é revolucionária (e é legítimo que a façam), por acaso imaginaram que "o sistema" não reagiria? Que seria possível fazê-la dentro das "regras democráticas", a que o autor chama "de fachada", sem que houvesse repressão?

Há repressão e violência, sim, nas relações do Estado com alguns dos estratos da sociedade. Há, sim, desigualdade social. Todos sabemos disso. Mas, hoje, menos que antes. E a custa de muita luta. De muito sangue. De muita porrada. De muitas vidas. Não há um gigante que estivesse adormecido e que somente agora tenha acordado. Até porque, perdoem-me e permitam-me, o "gigante" que foi às ruas com seus atos violentos (mesmo que justificados, ao menos segundo ele próprio) é minoritário. Ao menos por enquanto. E de forma alguma representa o pensamento e a vontade "do país". Haja vista todas as críticas que tem recebido.

Os Black Blocs podem ter razões para escolherem sua forma de ação e agirem conforme essa escolha. Mas, "ter razões" não é o que leva a estar certo e, muito menos, a vencer. Basta nos perguntarmos: a que nos levaram até agora esses atos? O que ganhamos com eles?

Pode-se até acreditar e afirmar que o refluxo nas manifestações não tenha sido causado pelo repúdio da população à violência, que seja consequência do discurso hegemônico, midiático, que é conservador. Pode ser esta a verdade. Mas é fato, então, que esse discurso venceu. O que demonstra que a tática está errada. Não alcançou corações e mentes. E sem estes e estas, não há qualquer possibilidade de sucesso. Pode, sim, causar muito mais estragos do que ganhos. E levar a perder o pouco que até aqui conquistamos.

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