segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A banalidade de Gabeira

No início do mês de agosto (dia 2, sexta-feira), em artigo postado em seu blogue e no site do Estadão, usando como motes o filme Hannah Arendt, a que diz ter assistido, e o discurso de Dilma Rosussef quando da chegada do Papa Francisco ao Rio de Janeiro para participar da Jornada Mundial da Juventude, Fernando Gabeira compara a presidenta ao nazista Adolf Eichmann, por ser, como este, alguém que se limita a "cumprir ordens", incapaz de pensar. Segundo Gabeira, Dilma, seu partido e seu governo têm características totalitárias, não lhes importando, por conta desse viés, a realidade, mas apenas a versão que lhes seja mais favorável e interessante. Para ele, Dilma é alguém que se limita a repetir o que lhe dita a cúpula do partido e que se porta como apenas e tão somente "uma peça da engrenagem". Uma engrenagem monstruosa, claro, determinada a perpetuar-se e que, para isso, utilizar-se-ia de indivíduos que, como ela, seriam meros instrumentos, substituíveis conforme as circunstâncias e os objetivos.

No dia seguinte, sábado, 3/8, o artigo foi republicado por Augusto Nunes em seu blogue/coluna no site de Veja.

O artigo de Gabeira tem como título A banalidade de Dilma, numa alusão direta à tese da pensadora sobre "a banalidade do mal", elaborada e divulgada por ela após ter assistido, em Jerusalém, ao julgamento do coronel alemão, responsável pela logística de transporte dos prisioneiros judeus dos campos de concentração para as câmaras em que viriam a ser executados. Hannah Arendt - uma judia alemã que conseguira escapar de um campo de prisioneiros na França e se estabelecido nos EUA, onde desenvolveu sua carreira acadêmica -, ofereceu-se para cobrir o julgamento para a revista New Yorker, tendo ali publicado, em cinco capítulos, o que mais tarde se transformaria no livro Eichmman em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal. Nele, a filósofa retrata não o que todos esperavam e desejavam ver - um assassino monstruoso e cruel -, mas aquilo com que se deparou: um burocrata cumpridor de ordens; desprovido de capacidade crítica ante "a missão que lhe cabia desempenhar"; alguém que simplesmente abdicara do exercício da capacidade de pensar e que, portanto, se desumanizara.

Deixando-se, por enquanto, de lado essa comparação esdrúxula, o fato de o artigo de Gabeira ter sido publicado por Estadão e Veja diz muito de suas motivações e de seus objetivos. A desqualificação de Dilma ali levada a termo é rasteira e tem como foco a eleição do ano que vem, cuja campanha já está precipitadamente lançada. Outro artigo dele, publicado no mesmo blogue no final de junho, corrobora essa interpretação. Ainda sob o impacto da onda de manifestações realizadas país afora e animado pela brusca queda, então verificada, da popularidade da presidenta, ele chegou a vaticinar que "o ciclo petista se encerrou".

Veja dispensa comentários. Não é uma revista, é um folhetim oposicionista, quase um partido de papel. Não que se pense ou proponha que um órgão de imprensa tenha que ser neutro politicamente, ou deva abdicar de assumir posições ou tomar partido. Nada disso. O problema é a forma como faz isso, hoje no Brasil, grande parte da mídia corporativa: apresentam opiniões como se fossem fatos, omitem informações, inventam situações, distorcem outras, invertem a ordem de eventos - mostrando o que é consequência como se fosse causa e vice-versa -, manipulam imagens... A capa de sua edição da semana passada - com a foto de uma jovem com o rosto encoberto por uma peça vermelha - é um claro exemplo disso. Os "Black Blocs" usam preto, não vermelho. A escolha da cor não é ingênua e nem um equívoco. E a moça utilizada - a expressão é exatamente essa, "utilizada" - já disparou, na blogosfera, toda a sua indignação ante a distorção de suas declarações.

É sugestivo notar que Gabeira exibe ao final da biografia que se encontra em seu blogue um elogio recebido de Veja.

Augusto Nunes é a figurinha simpática que atualmente comando o Roda Viva da TV Cultura, ​um jornalista que em seu ​blogue edita os comentários dos leitores, publica-os parcialmente e responde-os com xingamentos. Ele deve ter adorado replicar esse artigo​, já que ​habitualmente ​​se refere a​ Dilma ​como "dois neurônios", afirmando que ela não sabe falar e nem escrever. Usa, inclusive, um vídeo (na verdade, um trecho editado, descontextualizado) de apenas 28 segundos, apontando "erros" de português e matemática para ​ridicularizá​-la​. Omite que se trata de um discurso feito de improviso e para uma população de periferia. Por educação e respeito a meus leitores, recuso-me a reproduzir os termos com ​que ele costuma referir-se ​à presidenta, a Lula e a qualquer político do PT.

E o Estadão, se não se compara à ​Veja e à ​Folha e não pode ser acusado de desonestidade fática, não se pode ignorar que é um legítimo representante do pensamento conservador. O que é seu direito, diga-se. Mas o fato de ser ​nesses veículos​ onde Gabeira escreve diz muito sobre o conteúdo de seus artigos e do ideário a que serve.

Gabeira acusa Dilma de não pensar. E diz alguma verdade ao longo do artigo. Não essa, é claro, que não passa de um disparate de alguém determinado a desqualificar. Sim, porque nos termos em que Gabeira se expressa, não se pode nem chamar seu artigo de uma crítica. Trata-se de depreciar. Perdeu ele, portanto, uma oportunidade de dizer as mesmas verdades, apontando, porém, motivos razoáveis para sua discordância e, principalmente, alternativas ao que estivesse criticando. Essa é, aliás, como ​se sabe, uma das maneiras de identificar se estamos diante de uma crítica autêntica, ou de uma reles detração: a apresentação (ou não) de alternativas ​àquilo​ que se aponta como equivocado​ ou indevido​.

Gabeira também afirma algumas obviedades. Inclusive ao se referir ao filme, sobre o qual, na verdade pouco fala e que​, como disse antes,​ parece ter-lhe servido apenas como pretexto. E também nas referências ao pensamento de Hannah Arendt, que é muito mais elaborado do que o que ele expõe. O que não corrobora sua capacidade intelectual (dele, Gabeira) e põe em xeque o próprio título e a finalidade de seu artigo.​ Pelo que menciona - que é apenas o que é mostrado no filme, nada além disso -, pode-se até por em questão se ele realmente conhece a obra e o pensamento da filósofa.​

​O discurso d​e Dilma na recepção ao Papa​, cujo texto e o áudio​ est​ão disponíve​is na internet​, é mesmo uma peça sofrível. Não ​há elementos para afirmar, mas ​é razoável crer que tenha sido escrito ou sugerido por ​um assessor direto, ​católico e com conhecidíssimas ligações com a Igreja. Foi um discurso ​desnecessariamente longo. E, realmente, não cabiam, à ocasião, nem o autoelogio das ações do governo, nem a proposição ou sugestão de parcerias entre este e a Igreja. Até porque Francisco não estava no país para negócios de Estado. Veio ao Rio como dirigente espiritual, para um evento religioso, voltado para o público interno da Igreja, que apenas por suas dimensões se realiza em ambiente aberto.

​Contudo, Gabeira erra ao dizer que a proposta de parceria é descabida porque a Igreja já tem suas próprias estratégias. Ora, por que não propor? Ao que conste, é exatamente na possibilidade de união de forças e na sinergia das ações que reside a vantagem das parcerias. E, além de distorcer o sentido das palavras da presidenta, ele também extrapola ao afirmar que a tal parceria não interessaria à Igreja porque essa não precisaria do PT para implantar suas estratégias mundialmente. O que Dilma fez foi destacar que o governo e a Igreja já são parceiros em várias ações em favor dos mais pobres e propor que a parceria se estendesse a ponto de poder levar a outros países algumas das ações aqui desenvolvidas e que têm alcançado resultados auspiciosos. Ao fazê-lo, a presidenta sequer ventilou que a Igreja pudesse depender do apoio do PT; o que fez foi, ao contrário, pedir a ajuda da Igreja para difundi-las e implementá-las. Gabeira é quem não entendeu o que foi dito.

Mas, ao ler com atenção, percebe-se claramente que ​o jornalista​ não está nem um pouco preocupado com isso. Assim como o filme, ​o discurso é apenas mais um pretexto para seus objetivos: a desqualificação de Dilma, de seu governo como um todo e do PT. E ainda procurou respingar suas "críticas" nos governantes do Rio - prefeito e governador - seus adversários nas últimas eleições. Talvez por isso, não tenha entendido bem o que foi dito: por não ter prestado atenção. Ou por ter, ele sim, se recusado a pensar.​

Confesso que - a despeito de, em face das alternativas, apoiar o PT e o governo -, Dilma me decepciona. Considero-a politicamente fraca. É minha opinião que para ser presidente da república não basta ser um ótimo gestor (nem vou entrar na polêmica de se ela é ou não; Gabeira diz que não, sem apontar seus fracassos; mas ela tem uma história ​como ​Secretária de Estado no R​io Grande do ​S​ul​ e foi ministra, primeiro,​ das Minas e Energia e, depois, da Casa Civil). Um chefe de governo tem que ser político, tem que gostar de política e tem que saber fazê-la. Dilma não é, não gosta e não sabe fazer. E, pior, não deixa que outros façam por ela. Mas não é a isso que ele se refere.

Uma das obviedades apontadas por Gabeira é a de que Dilma se elegeu graças à máquina partidária. Desnecessário dizê-lo. Até os postes sabem. Mas, ele o faz com objetivo definido. Uma obviedade, por ser verdade,​ aos menos para os incautos​ credencia aquele que a proclama para afirmações outras que podem, e em geral é o que ocorre, ser assumidas como igualmente verdadeiras. É exatamente o que ele faz em seguida. Afirma que, além do partido, sua eleição ocorreu "com o apoio dos grandes empresários que florescem à sombra de um governo devasso, e injetando milhões de reais no esquema de marketing". Ou seja, além de desqualificá-la como gestora, que é o que poucos, mesmo entre a oposição e a mídia corporativa, ainda se permitem reconhecer-lhe, ele a compromete eticamente e, de quebra, de olho no sentimento expresso nas manifestações de rua e no desenrolar do julgamento do Mentirão, aponta suas baterias contra o PT. Ora, se a única característica de Dilma apontada como positiva - a de gestora - não é bem assim, se ela é uma queridinha dos empresários (leia-se inimigos dos pobres), se seu governo é corrupto, se foi eleita graças à gastança de dinheiro (leia-se público), se é mero fruto de propaganda e se seu partido, o único responsável por sua eleição, não passa de um antro, ... por que, então, reelegê-la? Por que não mudar? Por que não escorraçá-los, a ambos, do poder?

Matreiramente, Gabeira esconde que, por aqui, empresários sempre floresceram à sombra de governos. Muito mais em tempos passados. E com a utilização de recursos públicos. Inclusive os empresários da mídia, ramo onde atua. Acusa o governo de devasso, falseando em duas direções. A primeira, ao sugerir, como faz todo o tempo a grande mídia, que a corrupção nasceu com o governo do PT. E a segunda, ao não distinguir os governos​. O "mensalão", de que se aproveita sem mencionar, ocorreu (se ocorreu) ​durante o mandato de Lula​. E Dilma ​tem trat​ad​o as denúncias e os denunciados de corrupção de forma bem diferente. E falta igualmente com a verdade ao não dizer ​que, não só no Brasil, mas em quase todo o mundo, não há eleição sem propaganda.

Depois, ​Gabeira cita o fato de Dilma não haver correspondido a uma "expectativa ingênua", de alguns, de que pudesse se "separar" do PT. Nesse ponto - delicado, pois afirmar com todas as letras que ela devesse trair suas origens poderia não soar bem a quem o lesse -, ele sugere, sorrateira e sub-repticiamente, que fosse legítimo fazê-lo, ao se referir à ingenuidade dos que a imaginaram "diferente" e vislumbraram-lhe alguma decência.

Em seguida ele afirma que o PT errou na avaliação da crise de 2008. E tasca mais uma obviedade - a de que se tratou da primeira crise do capitalismo desde 1930. Mas, como faz ao longo de todo o artigo, não mostra qual é a interpretação "correta". Afirma apenas que, ao mudar o paradigma, deixando de seguir o receituário do "Consenso de Washington" - expresso repetidamente nas recomendações do FMI para aplicação de arrochos fiscal e salarial, redução de gastos, desregulamentação da economia, abertura indiscriminada do mercado interno às importações e ao ingresso de investimentos privados em serviços públicos e desalienação de ativos públicos (privatização) -, o governo o teria feito apenas por supor que "à crise do capitalismo, sucede o socialismo", por ser incapaz de pensar e agir seguindo um "dogma" da esquerda (talvez aqui um dos motivos da alusão à visita do Papa). E ainda aponta como fruto de favorecimento do governo a seus protegidos um fato natural do capitalismo (ou que ao menos deveria sê-lo), que é a quebra de alguns empresários como decorrência do risco dos negócios num ambiente de livre competição. E o faz sem indicar qualquer dado concreto a sustentar sua afirmação, ou seja, de forma absolutamente leviana.

Com a pretensão de "amarrar" o que seriam suas conclusões com os pretextos (não premissas) utilizados, Gabeira afirma que o discurso de Dilma e do governo de que a onda de manifestações é fruto de seus acertos e não de seus erros é uma manifestação de seu viés "totalitário", por torcer a realidade. O que é, no mínimo, questionável. Até porque ele não apresenta argumentos para justificar o que afirma. E até se pode discordar da interpretação e do discurso do governo, mas daí a sugerir que seja totalitário vai uma distância intergalática.

Uma análise rasa das insatisfações e reivindicações que se conseguiu identificar durante os protestos, deixa claro que, pela organização do Estado brasileiro e pelas atribuições constitucionalmente definidas, a grande maioria delas deveria ser dirigida aos governos estaduais e municipais. E que apenas por ignorância e influência midiática foram direcionadas ao governo federal. Isso fica claro quando se percebe que até questões judiciais e legislativas foram debitadas ao executivo, numa clara demonstração do desconhecimento das competências e atribuições de cada um dos Poderes. E mais, mesmo diante da constatação de que até agora ninguém conseguiu avaliar e compreender com precisão o que aconteceu no país nos últimos meses, se houve alguém que conseguiu estabelecer algum diálogo e oferecer alguma resposta, mesmo que não a mais adequada, ao contrário do que Gabeira tenta desajeitadamente provar, esse alguém foi Dilma.

É estranho que Gabeira acuse de não pensar, justamente alguém que, como ele, sentiu na própria carne a dureza de um regime ditatorial e que, também como ele, mergulhou na clandestinidade e pegou em armas como forma de reação e resistência. Só quem pensa é capaz de resistir ou reagir. Se realmente conhecesse um pouco mais da obra de Hannah Arendt, saberia, por exemplo, que é isso o que ela afirma e é disso que ela trata em outros três de seus livros: Homens em tempos sombrios, A vida do espírito e Responsabilidade e julgamento.

Mas este não é o único sintoma de que talvez seja Gabeira que se tenha deixado tomar pela banalidade. Naquele mesmo artigo em que vaticinou o fim do ciclo petista, ele afirmou também não acreditar que o PT estivesse tentando aplicar um golpe, inclusive por não haver condições para isso no momento histórico por que passamos. Contudo, a simples menção a essa possibilidade trai suas intenções e, numa inversão da acusação feita por ele, faz-nos supor que talvez seja ele quem parece não se importar com a realidade, mas apenas com a versão que melhor cabe a seus propósitos. Afinal, se há algum rumor de golpe nesse momento, ele vem de outra direção, bem mais próxima do campo em que Gabeira prefere transitar atualmente.

E, ainda mais, em outro artigo, publicado em 1/7, é Gabeira quem se declara contrário à proposta de plebiscito apresentada por Dilma como forma de ouvir o país sobre a tão necessária reforma política que o parlamento não consegue levar a termo. Quem é o autoritário nesse episódio? Aquela que o propõe ou aquele que o rejeita? Haverá uma resposta pronta e, sem qualquer margem de dúvida, acertada? Dá para responder de pronto, imediata e automaticamente? Sem pensar? Será possível acreditar que possa partir de alguém com caráter totalitário, e bem no calor de manifestações e protestos vistos como espontâneos, a ideia e a proposta da realização de uma consulta popular? Para responder a isso é preciso refletir. O que Gabeira parece sequer ter-se dado o tempo de fazer.

Ao que parece, é Gabeira quem não está pensando.

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