segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Black Blocs: quais as alternativas?

Estamos diante de uma violência a ser simplesmente rejeitada? Ou sobre a qual devemos nos debruçar seriamente e (re)pensar?

A notícia está no Estadão de sábado, 3/8/2013: "Black Blocs já se articulam em 23 Estados do País".

A primeira reação - responsável - é de preocupação, receio e rejeição. A possibilidade de que o país inteiro seja tomado por uma onda de manifestações violentas - cujas fontes de estímulo e articulação são ainda ignoradas, mas que muitos acreditam, com razão, ter origem estrangeira e espúria, e cujas consequências são impossíveis de precisar - é assustadora. A prudência recomenda mesmo que cidadãos conscientes e temerosos de prováveis danos à estabilidade política do país evitem as ruas e privem-se da participação nos eventos públicos programados para a data.

Como costumo postar e afirmar (o que reafirmo), os "Black Blocs não me representam". Contudo, faço questão de enfatizar o "me". Não representam "a mim" e, provavelmente, a muita gente com histórias de vida semelhante. E, também, em vista do atual cenário político nacional. 

Mas há uma outra perspectiva, sob a qual se pode analisar esse recente fenômeno e à qual não nos podemos furtar, tal qual avestruzes. É preciso reconhecer que há situações em que, embora possa-se discordar, a adoção da prática de atos violentos como forma de atuação política pode ser justificada e legítima. Uma delas é a existência de um regime autoritário - o que hoje inegavelmente não há - e/ou de um Estado repressor - o que, mesmo atualmente, é, no mínimo, questionável. Exemplo concreto e amplamente endossado em nossa história não muito distante foi a opção de vários grupos de esquerda que, como forma de reação aos governos militares das décadas de 1960 e 1970, partiram para a luta armada, praticando assaltos a bancos e sequestros.

Outra é a condição em que vive hoje uma enorme e altamente significativa parcela da população, que convive diuturnamente com a violência praticada pelo Estado, não só aquela que mais choca e causa reações mais imediatas e de maior indignação, que é a violência física praticada justamente pelos agentes de segurança, cuja missão deveria ser a de proteger a população, mas também a de mais profundas consequências, que é a ausência ou a precariedade dos serviços públicos.

É também bastante conhecida a maneira como as manifestações políticas populares, sejam elas de contestação ou reivindicação, são tratadas pelo Poder Público: repressiva, violenta, com o uso de força desproporcional e que vê a rua como campo de guerra e os manifestantes como um inimigo a ser vencido.

Assim, é impossível deixar de reconhecer que temos um caldo de cultura política a favorecer o surgimento e a adoção dessas práticas como a última e talvez a única forma de se fazer ouvir por grande parte daquilo que, às vezes de forma equivocada e até mesmo leviana, costumamos chamar de "a sociedade" brasileira.


Não se trata de fazer apologia da violência e do vandalismo - até porque boa parte do que vem sendo alvo da ação desses grupos tem sido o patrimônio público. Mas, há muito o que se buscar compreender e muito o que se discutir a fim de encontrar alternativas legítimas, válidas e eficazes. Inclusive por que, mesmo com todo o "estrago" até agora causado pelos BB, uma boa parte de nossos políticos insiste em escarnecer do povo, ignorando o sentimento expresso nas manifestações e persistindo em suas velhas práticas.

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